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Ergoespirometria · revisão de bolso

Teste cardiopulmonar
de exercício

Conceitos básicos, valores de normalidade, principais alterações e os padrões diagnósticos mais comuns — para consulta em segundos, no meio do ambulatório.

Fonte única. Todo o conteúdo desta página é transcrição da Parte 3 (Teste Cardiopulmonar de Exercício) da Diretriz Brasileira de Ergometria em População Adulta – 2024, da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Nenhum dado foi acrescentado, estimado ou interpretado.
01

O que é, e o que ele mede a mais

Seções 1 e 2 da Parte 3.

Definição

O TCPE é método de diagnóstico que proporciona análise conjunta das manifestações clínicas, hemodinâmicas, eletrocardiográficas, ventilatórias e concentrações de gases no ar expirado.

O que ele acrescenta ao teste ergométrico

Incorpora em tempo real a medida do volume de ar ventilado (VE), pelos transdutores de fluxo e volume, e as frações expiradas de oxigênio (FEO₂) e de dióxido de carbono (FECO₂), pelo analisador de gases — permitindo obter múltiplas variáveis de interesse clínico.

Anaeróbio alático (ATP-PCr)

Fornece energia imediatamente, porém por muito pouco tempo. Nas atividades muito intensas, o estoque celular de ATP-PCr se esgota em segundos — esse é o seu fator limitante.

Anaeróbio lático (glicólise)

Energia a curto prazo, por pouco tempo. Nas atividades de grande intensidade com poucos minutos de duração, gera resíduo incremental de ácido lático que repercute em acidose metabólica limitante.

Aeróbio (oxidativo)

Exige consumo de O₂ (VO₂) e fornece energia a longo prazo — fonte "ilimitada" —, mantendo esforço leve e moderado à custa da desintegração de macronutrientes.

Na transição repouso → esforço

Há participação concomitante das 3 vias. Somente após o período de ativação mitocondrial a via aeróbica se torna predominante. As três vias funcionam integradas e interdependentes, e a recuperação das vias anaeróbicas depende do metabolismo aeróbico.

02

Os dois limiares ventilatórios

Pontos de transição metabólica observados nas curvas de VE, VO₂, VCO₂ e suas variáveis derivadas (seção 3.4).

Antes do LV1

Domínio aeróbio

Esforço leve a moderado sustentado pelo metabolismo oxidativo. QR em torno de 0,72 nas cargas iniciais — utilização quase exclusiva de gordura.

→
LV1 · limiar anaeróbio

Acidose compensada

Também chamado limiar de lactato. Marca a aceleração do acúmulo sustentado de lactato: participação crescente do metabolismo anaeróbio lático, com acidose metabólica ainda compensada pela alcalose respiratória. QR ≈ 0,82 (≈40% lipídios / ≈60% carboidratos).

→
LV2 · ponto de compensação respiratória

Acidose descompensada

Também chamado PCR ou OBLA. Segunda inflexão das curvas de VE e CO₂ em relação ao VO₂. Acidose incrementalmente limitante pela impossibilidade de compensação ventilatória, culminando com exaustão física. QR ≈ 1,00.

Como se identifica o LV1

Medida direta pela dosagem do lactato sanguíneo (mmol/L ou mEq/L). Medida indireta no TCPE: primeiro ponto de dissociação das curvas VE/VO₂ e VCO₂/VO₂.

Como se identifica o LV2

Incremento desproporcional da VE em relação ao VCO₂ — dissociação das curvas de VE e VCO₂, com aumento da relação VE/VCO₂. Nesse ponto, em pacientes com IC, VE/VCO₂ ≥ 34 indica pior prognóstico.

Por que importa no dia a dia

O limiar anaeróbio tem valor prognóstico em pacientes com IC e é relevante na avaliação do desempenho e na prescrição de treinamento físico, na reabilitação cardiovascular e no esporte. Com adaptação ao treinamento, o LA é deslocado para a direita, com maior tolerância ao esforço, aproximando-se do VO₂máx.

03

As variáveis, uma a uma

Seção 3 — ventilação pulmonar, gases no ar expirado e variáveis derivadas.

VO₂ · consumo de oxigênio

Diferença entre as concentrações de O₂ do ar inspirado e do expirado. Expresso em L/min (absoluto) ou, preferencialmente, em mL/kg/min (relativo ao peso).

1 MET = 3,5 mL/kg/min de VO₂
VO₂máx vs. VO₂pico

VO₂máx — quando, apesar do aumento da carga, se estabelece platô de VO₂, sem elevação ou com apenas discreto aumento (<50 mL/min ou 2,1 mL/kg/min).

VO₂pico — maior valor obtido ao fim de esforço exaustivo, na ausência de platô.

O VO₂máx é o padrão-ouro na determinação da aptidão cardiorrespiratória.

QR · quociente respiratório (R)

Razão VCO₂/VO₂. Identifica a intensidade do exercício e o macronutriente usado.

  • Cargas iniciais: ≈0,72
  • No LV1: ≈0,82
  • No LV2: ≈1,00
QR ≥ 1,10 = quase exaustão ou exaustão
Permite considerar o exame como sendo de esforço máximo.
VE · ventilação pulmonar

Volume total de ar que ventila o trato respiratório em um minuto, incluindo o espaço morto.

VE = VC × FRVE em L/min · FR em incursões/min · VC em L/min

Em repouso, adulto jovem saudável: FR ≈12/min e VC ≈0,5 L → VE = 6 L/min. No esforço extenuante a VE aumenta 17–20 vezes, às custas de FR de 35–45/min.

RV · reserva ventilatória
RV = [(VVM − VEmax) / VVM] × 100VVM = VEF₁ × (valor entre 35 e 40), avaliada por respiração rápida e profunda por 15 s, extrapolada para 1 min.

Normal: 20% a 40% — em média 3.000 mL nos homens e 2.100 mL nas mulheres. Em condições normais a VEmax fica abaixo de 70% da VVM.

Contribui para o diagnóstico diferencial de dispneia.

VE/VO₂ e VE/VCO₂ · equivalentes ventilatórios

Indicam a VE necessária para consumir 1 L/min de O₂ e para produzir/eliminar 1 L/min de CO₂.

VE/VO₂ diminui até o LV1 e depois aumenta progressivamente. VE/VCO₂ diminui até o LV2 e aumenta em seguida.

A curva VE/VCO₂ é preditora de mortalidade e/ou hospitalização, principalmente na IC e na DPOC: quanto maior o valor, pior o prognóstico.

PETO₂ · pressão expiratória final de O₂

Em repouso, ao nível do mar: ≈100 mmHg. No início do esforço apresenta diminuição transitória; em seguida aumenta 10 a 30 mmHg até o esforço máximo.

É maior nos pacientes com função cardiopulmonar prejudicada — o LV1 é o estado metabólico com melhores correlações.

PETCO₂ · pressão expiratória final de CO₂

Reflete a PCO₂ alveolar e arterial. Em repouso, ao nível do mar: ≈40 mmHg, elevando-se 3–8 mmHg no esforço. Atinge o máximo no LV2 e depois diminui até o esforço máximo.

Medida no LV1 (maior estabilidade metabólica), correlaciona-se com o débito cardíaco e, na IC crônica, reflete a gravidade da doença.

PuO₂ · pulso de oxigênio

VO₂ ÷ FC, em mL/kg/min/bpm. Reflete a quantidade de O₂ transportada a cada sístole e tem relação direta com o volume sistólico, permitindo avaliar a função do VE.

Na isquemia miocárdica, a disfunção do VE é constatada pela resposta do PuO₂ em platô e/ou queda.

No estudo ORBITA, dos parâmetros do TCPE, apenas o platô de PuO₂ detectou objetivamente a gravidade da isquemia diagnosticada no eco sob estresse com dobutamina.

ΔVO₂/ΔWR

Quantificação fisiológica da taxa de trabalho, FC e VO₂ em que a isquemia miocárdica se desenvolve. Mais facilmente determinada em cicloergômetro com protocolo de rampa; expressa em mL/min/W.

Adultos saudáveis: relação linear do início ao pico, valor ≈10 mL/min/W

Na isquemia esforço-induzida: disfunção do VE com achatamento da curva a partir do limiar isquêmico.

POC · ponto ótimo cardiorrespiratório

Valor mínimo da curva VE/VO₂. Variável submáxima, de fácil utilização. Reflete a eficiência cardiorrespiratória e tem valor preditor de mortalidade cardiovascular e por todas as causas, isoladamente ou associada ao VO₂máx.

OUES · eficiência da captação de O₂

Variável de grande reprodutibilidade, derivada inclusive de valores submáximos de VO₂. Corresponde ao aumento absoluto do VO₂ associado a um aumento de 10 vezes da VE.

VO₂ = a · log₁₀ VE + bPrevisão (Sun et al., 2012):
Homens: 1,178 − (idade × 0,032) + (0,023 × altura cm) + (0,008 × peso kg)
Mulheres: 0,61 − (idade × 0,032) + (0,023 × altura cm) + (0,008 × peso kg)

Pacientes com IC grave têm menor eficiência ventilatória e baixos valores de OUES.

EOV · ventilação oscilatória ao esforço

Fenômeno anormal, reprodutível, facilmente reconhecível já no TCPE submáximo. Flutuação cíclica da VE — padrão oscilatório >15% do valor médio de VE em repouso — e da cinética de gases expirados, com duração >60% do tempo de esforço.

Marcador de gravidade e pior prognóstico na IC, principalmente quando ocorre precocemente e o ciclo dura mais que 1 minuto.

T½ · recuperação do VO₂ (recovery delay)

Tempo necessário para queda de 50% do VO₂pico na recuperação. Diminui com treinamento físico bem conduzido; seu aumento associa-se a pior prognóstico nos pacientes com IC.

Potência circulatória e ventilatória

PC = PAS pico × VO₂máx (ou pico).
PV = PAS pico ÷ VE/VCO₂.

Ambas têm valor prognóstico na ICFEr. A avaliação conjunta melhora a estratificação de risco para desfechos maiores (morte, dispositivo de assistência ventricular, transplante cardíaco).

04

Valores de normalidade

Seção 3.15 — os resultados devem, sempre que possível, ser apresentados relacionados aos seus valores de referência (valores previstos), o que é essencial para as devidas interpretações e conclusões.

Tabela 43 — Valores de referência do VO₂pico, pulso de oxigênio e curva VE/VCO₂ no TCPEAdaptada de Mezzani A. et al. “Cardiopulmonary Exercise Testing: Basics of Methodology and Measurements”.
IdadeHomensMulheres
VO₂pico (mL/min)
20–293,250–2,9702,000–1,840
30–392,950–2,6901,820–1,660
40–492,670–2,4001,640–1,490
50–592,380–2,1301,470–1,320
60–692,110–1,8401,300–1,140
70–801,820–1,5701,120–0,940
Pulso de oxigênio (mL/bpm)
20–2916,2–15,610,0–9,6
30–3915,5–14,99,6–9,2
40–4914,8–14,19,1–8,7
50–5914,0–13,28,6–8,2
60–6913,1–12,28,1–7,5
70–8012,1–11,17,4–6,7
Relação VE/VCO₂
20–3923,4–25,726,8–28,3
40–5925,8–28,128,4–29,9
60–8028,2–30,630,0–31,6
Tabela 44 — Valores de referência e interpretação das principais variáveis do TCPEAdaptada de Marcadet DM et al. “French Society of Cardiology guidelines on exercise tests (part 1)” e de Mezzani A. et al.
VariávelNormalLeveModeradoGrave
%VO₂pico previsto≥100%75–99%50–74%<50%
%VO₂pico previsto no LV140–80%<40%
Relação VE/VCO₂<3030–35,936–45>45
Pulso de oxigênio no esforçoAumentoPlatô precoce* ou diminuição
Reserva respiratória≥30%<30%**
EOVAusentePresente
VO₂ no LV1≥40% do VO₂pico previsto ou 40–60% do VO₂pico medido<40% do VO₂pico previsto ou do VO₂pico medido
PETCO₂ no LV1Aumento de 3 a 8 mmHg em relação ao repousoAumento <3 ou >8 mmHg em relação ao repouso
* Platô antes do VO₂ máximo. ** Em caso de doença pulmonar. EOV: ventilação oscilatória ao esforço; LV1: 1º limiar ventilatório; PETCO₂: pressão parcial expiratória final de dióxido de carbono.
Tabela 42 — Valores de referência de parâmetros básicos da espirometria para a população brasileira adulta, branca e negraValor ± desvio padrão. Adaptada de Pereira CAC et al. e de Prata TA et al.
VariávelBranca · HomensBranca · MulheresNegra · HomensNegra · Mulheres
CVF (L)4,64±0,774,42±0,783,14±0,653,10±0,52
VEF₁ (L)3,77±0,672,56±0,573,55±0,692,55±0,48
VEF₁/CVF (%)81,0±581,0±580,3±5,482,0±5,4
FEF₂₅₋₇₅ (L/s)3,87±1,202,70±0,943,54±1,172,77±0,93
FEF₅₀ (L/s)4,82±1,443,40±1,144,39±1,363,54±1,06
FEF₇₅ (L/s)1,58±0,641,07±0,521,43±0,631,11±0,52
PFE (L/s)11,1±1,757,14±1,289,77±2,076,73±1,28
05

Principais alterações: de onde vem a dispneia

Seção 5.6 — a baixa aptidão cardiorrespiratória é comum a todas as etiologias e não é bom parâmetro isolado para o diagnóstico diferencial.

Tabela 49 — Diagnóstico diferencial das principais causas de dispneia no TCPE
VariávelCardíacaPulmonarVascular pulmonarHiperventilação
VO₂ picoReduzidoReduzidoReduzidoNormal
LV1PrecoceNormalPrecoceNormal
QRNormalReduzidoNormal/reduzidoNormal/reduzido
Relação VE/VCO₂ElevadoElevadoElevadoElevado
PuO₂Reduzido/platôNormalReduzidoNormal
SatO₂NormalQuedaQuedaNormal
ΔVO₂/ΔWRReduzidoNormalReduzidoNormal
Limitação ventilatória
  • RV no pico <15%, principalmente quando o QR <1,00, permite o diagnóstico de limitação ventilatória.
  • Frequente não detecção do LV1 (com QR <1,0).
  • Na interrupção por limitação ventilatória, em geral VO₂ e FC pico baixos.
  • ΔVO₂/ΔWR e PuO₂ normais, exceto se associado a HAP com débito cardíaco comprometido.
Marcadores pulmonares
  • Nas doenças pulmonares: equivalentes ventilatórios elevados, RV reduzida, VD/VT aumentada, PETCO₂ reduzida e dessaturação — em conjunto ou separadamente.
  • Redução da SatO₂ >5% (oximetria de pulso) indica limitação pulmonar.
  • Espirometria até 30 min pós-esforço: queda do VEF₁ ≥15% indica broncoespasmo esforço-induzido.
Marcadores cardíacos (IC)
  • VE/VCO₂ elevada e VO₂ máximo reduzido, correlacionados com a gravidade da IC.
  • Reserva ventilatória preservada, frequentemente sem dessaturação, indica causa cardíaca — exceção para cardiopatias congênitas complexas, que cursam com dessaturação.
  • VD/VT aumentada e EOV presente indicam pior prognóstico da IC.
Atenção

Causas cardíacas e pulmonares podem se sobrepor gerando padrões mistos, refletindo efeitos secundários do distúrbio principal ou a associação de comorbidades. Em pacientes com dispneia/intolerância ao esforço após COVID-19, devem ser cogitadas sequelas: fibrose pulmonar, tromboembolismo pulmonar, miocardite, disfunção diastólica e/ou sistólica dos ventrículos, miopatia.

06

Diagnósticos mais comuns

Seção 5 — realização do TCPE em algumas situações específicas.

Insuficiência cardíaca

Transplante cardíaco · classe I B

Clássica indicação na seleção de pacientes com IC terminal:

  • Em uso de betabloqueadores: VO₂pico < 12,0 mL/kg/min
  • Intolerantes aos betabloqueadores: VO₂pico < 14,0 mL/kg/min
Classificação de Weber

Baseada no VO₂máx/pico, com taxas de mortalidade crescentes:

  • A — VO₂ >20 mL/kg/min
  • B — 16–20 mL/kg/min
  • C — 10–15 mL/kg/min
  • D — <10 mL/kg/min
Classes ventilatórias (Arena et al.) · VE/VCO₂

Risco de eventos — mortalidade, transplante ou implante de dispositivo de assistência ventricular esquerda. Sobrevida livre de eventos entre parênteses (p<0,001):

  • CVent-I — ≤29 (97,2%)
  • CVent-II — 30,0–35,9 (85,2%)
  • CVent-III — 36,0–44,9 (72,3%)
  • CVent-IV — ≥45,0 (44,2%)
Escore TCPE · >15 pontos = elevado risco de eventos
  • Curva VE/VCO₂ >34 — 7 pontos
  • Queda da FC no 1º min da recuperação <6 bpm — 4 pontos
  • OUES <1,47 L/min — 3 pontos
  • VO₂pico ≤14 mL/kg/min — 2 pontos
  • PETCO₂ em repouso <33 mmHg — 2 pontos

Outras variáveis prognósticas usadas: VO₂ no LV1, OUES, pulso de oxigênio, EOV e POC.

Tabela 45 — Alterações das variáveis do TCPE em pacientes com IC
VariávelAlteraçãoUtilidadeInterpretação
VO₂pico↓Avaliação geral do desempenho ao esforço. Marcador prognóstico de mortalidadeClassificação de Weber · Indicação de transplante: em uso de betabloqueadores <12,0; nos intolerantes, <14,0 mL/kg/min
VO₂ no LV1↓Avaliação geral / ↓ débito cardíacoAvaliação da gravidade / prognóstico
PuO₂↓Débito cardíaco / função do VERelação direta com o volume sistólico. PuO₂ em platô e/ou queda = disfunção de VE
Inclinação VE/VCO₂↑Incompatibilidade ventilação-perfusão / aumento do tônus simpáticoPreditor de mortalidade e hospitalização · Quanto maior a inclinação, pior o prognóstico
Relação VE/VCO₂↑Marcador prognóstico / doença pulmonar concomitanteRelação >34 é preditora independente de pior prognóstico
ΔVO₂/ΔWR↓↓ Débito cardíaco / ↓ entrega de O₂Disfunção do VE: achatamento da curva. Marcador prognóstico
EOVPresente↓ Débito cardíaco / resposta quimiorreflexa alteradaMarcador de gravidade / prognóstico, principalmente se precoce e ciclos >1 min
PETCO₂*↓↓ Débito cardíaco / ↑ resposta quimiorreflexaReflete a gravidade da doença
POC↑Variável em esforço submáximo. Reflete a eficiência cardiorrespiratóriaPreditor de mortalidade CV e por todas as causas. POC ≥36 apresenta maior mortalidade CV e transplante cardíaco urgente
OUES↓Eficiência ventilatória de consumo de O₂Valor prognóstico e risco de eventos
Relação VD/VT↓Aumento do espaço morto com esforçoMarcador de prognóstico. Associa-se à dispneia esforço-induzida
* Melhor avaliado no 1º limiar ventilatório (LV1). VD/VT: relação espaço morto/volume corrente.

Doença arterial coronariana

O que o TCPE possibilita na DAC estável
  • Diagnóstico, discriminação dos aspectos fisiopatológicos e determinação da gravidade da isquemia esforço-induzida.
  • Determinação da aptidão cardiorrespiratória pela medida direta do VO₂pico/máximo (padrão-ouro).
  • Contribuição na definição e ajustes das intervenções terapêuticas.
  • Prescrição individualizada e otimizada de exercícios aeróbicos na reabilitação CV.
Variáveis de diagnóstico e prognóstico

Diagnóstico: pulso de oxigênio, curva VE/VCO₂, PETCO₂ e PETO₂, ΔVO₂/ΔWR — permitem detectar a isquemia miocárdica esforço-induzida, dando ao TCPE maior sensibilidade e especificidade em relação ao teste ergométrico.

Prognóstico: aptidão cardiorrespiratória (VO₂máx/pico); VO₂ no limiar de angina; POC.

Na disfunção do VE observa-se anormalidade da PETCO₂ (no LV1), da PETO₂ (no LV1 e no pico) e dos índices com que ambas se correlacionam: VO₂pico, LV1, ΔVO₂/ΔWR e inclinação aumentada da VE/VCO₂.

Miocardiopatia hipertrófica

Tabela 46 — Alterações das variáveis do TCPE em pacientes com MCH
VariávelAlteraçãoUtilidadeInterpretação
VO₂pico↓Avaliação do desempenho ao exercício. Marcador prognóstico de mortalidadeVO₂pico <20 mL/kg/min ou <80% do previsto associou-se a pior prognóstico (transplante cardíaco e hospitalização para redução do septo). VO₂pico <50% do previsto associou-se à mortalidade geral e CV
VO₂ no LV1↓Avaliação geral / ↓ débito cardíacoMecanismos semelhantes aos envolvidos na redução do VO₂pico · Relação direta com volume sistólico
PuO₂↓Débito cardíaco / fortemente relacionada ao volume sistólicoAchatamento precoce em torno de 50% a 60% da carga máxima, por redução do volume sistólico. Quanto mais precoce o achatamento, maior a gravidade da MCH
ΔVO₂/ΔWR↓↓ Débito cardíaco / VO₂Preservado ou ligeiramente reduzido na maioria. Redução ou inclinação lenta na última parte do esforço sugerem comprometimento diastólico e/ou estágio final. Mudança abrupta na linearidade indica isquemia miocárdica associada
Relação VE/VCO₂↑Prognóstico / mortalidadeRelação >34 é preditora de mortalidade geral e transplante cardíaco
Considerar ainda que o VO₂ máximo ou o VO₂pico (quando não se atinge o QR ≥1,10) têm valor prognóstico, e que é possível identificar os pacientes com obstrução da via de saída do VE esforço-induzida, particularmente pelo pulso de O₂.
Valvopatias · estenose aórtica
  • O prognóstico piora com a presença de sintomas esforço-induzidos.
  • Relevante para aprimoramento diagnóstico e prognóstico e diferenciação da limitação ao esforço, principalmente em sedentários, na intolerância ao esforço ou com múltiplas comorbidades.
  • TCPE máximo deve ficar restrito aos pacientes assintomáticos ou questionavelmente sintomáticos, havendo contraindicação absoluta para os indiscutivelmente sintomáticos.
DPOC
  • A espirometria em repouso não permite determinar o grau de intolerância ao esforço.
  • RV no pico <15%, principalmente com QR <1,00, permite o diagnóstico de limitação ventilatória.
  • O VO₂pico é o melhor índice definidor da aptidão cardiorrespiratória quando o paciente se exercitou até o seu limite.
  • Hiperinsuflação pulmonar dinâmica: aprisionamento aéreo, ↑ progressivo do VR e ↓ do VC, com redução da capacidade inspiratória — melhor observada por análises periódicas da curva fluxo-volume com medida da CI durante o exercício, principalmente quando há desproporção entre a intensidade dos sintomas e o grau de obstrução das vias aéreas.

Doença vascular pulmonar

Por que o TCPE entra cedo aqui

A HAP — definida por PAPmd ≥25 mmHg — tem a dispneia ao esforço como sintoma mais precoce. A PAPmd em repouso é frequentemente normal nos estágios iniciais, só se alterando quando mais de 50% da circulação pulmonar estiver obstruída, o que causa diagnóstico tardio.

Suspeita diagnóstica (método não invasivo)
  • As razões VE/VCO₂ no LV1 e no pico são muito elevadas na HAP.
  • Baixos valores de PETCO₂ no repouso e no esforço, com aumento da PETO₂, associados à HAP por incompatibilidade V/Q.
  • VE/VCO₂ >37 e PETCO₂ <30 mmHg no POC podem indicar DVP, na ausência de hiperventilação aguda.
  • Valores excepcionalmente baixos de PETCO₂ (<20 mmHg) sugerem HAP como causa da dispneia ao esforço.
Gravidade e resposta terapêutica
  • Na HAP idiopática, VO₂pico <10,4 mL/kg/min e PAS pico <120 mmHg são de pior prognóstico.
  • VO₂ >15,0 mL/kg/min indica bom prognóstico.
  • VE/VCO₂ no LV1 ≥54 e no esforço máximo ≥62 indicam pior prognóstico / menor sobrevida.
  • Curva VE/VCO₂ menos inclinada (valores mais elevados) é observada na HAP por TEP crônico.
Tabela 47 — Comportamento das principais variáveis do TCPE em pacientes com doenças vasculares pulmonares
VariávelHipertensão arterial pulmonarHipertensão pulmonar tromboembólica crônicaDoença veno-oclusiva pulmonar
VO₂ pico↓↓↓
VO₂ LV1↓↓↓↓
PuO₂↓↓↓
Inclinação VE/VCO₂↑↑↑↑↑
ΔVO₂/ΔWR↓↓↓
PETCO₂↑↑↑↑↑
SatO₂↓*↓↓↓↓
Relação VD/VT↑**↑↑↑↑
* Queda >3% sem aumento da PaCO₂. ** Aumento >30% durante o esforço.
Tabela 48 — Avaliação do risco através das variáveis do TCPE em pacientes com HAP
VariávelComportamento com progressão da HAPBaixo risco (<5%)Intermediário (5–10%)Alto risco (>10)
Classe funcional↓I e IIIIIIV
VO₂ pico (mL/kg/min)↓>1511–15<11
%VO₂ predito↓>6565–35<35
Relação VE/VCO₂↑<3636–45>45
07

Quando pedir

Quadro 2 (indicações gerais) e Tabela 11 (indicações específicas, com grau de recomendação e nível de evidência) — Parte 1, seção 2.4.

Quadro 2 · indicações gerais

São as mesmas do teste ergométrico, principalmente quando há necessidade de adicionar as variáveis ventilatórias e metabólicas.

  • Doenças e situações em que a determinação direta dos parâmetros ventilatórios e a análise de gases contribuem para avaliação diagnóstica, estratificação de risco e condutas preventivas e terapêuticas
  • Determinação das causas limitantes do desempenho cardiorrespiratório e mecanismos fisiopatológicos envolvidos
  • Diagnóstico diferencial de dispneia (asma esforço-induzida, IC, DPOC etc.)
  • Doenças cardiovasculares: diagnóstico, prognóstico e ajustes terapêuticos (DAC, CC, IC etc.)
  • Seleção de candidatos ao transplante cardíaco
  • Doenças pulmonares (DPOC, asma, enfisema, intersticiais): diagnóstico, prognóstico e ajustes terapêuticos
  • Resposta terapêutica na hipertensão pulmonar e fibrose cística
  • Outras: pré-operatório de cirurgia não cardíaca em pneumopata; avaliação após transplante de pulmão, coração e coração-pulmão; seleção de modalidade esportiva em atleta competitivo; teste seriado para ajuste de cargas de treinamento; avaliação pericial / medicina do trabalho; avaliação e prescrição de exercícios para reabilitação cardiovascular, pulmonar e metabólica
Tabela 11 · indicações classe I
  • Intolerância ao esforço e diagnóstico diferencial de dispneia I A
  • IC estável, para aptidão cardiorrespiratória, estratificação de risco, ajustes terapêuticos e liberação/prescrição de exercícios I A
  • IC, para indicação de dispositivo de suporte ventricular ou transplante cardíaco I B
  • DAC, para aptidão cardiorrespiratória, estratificação de risco, ajustes terapêuticos e liberação/prescrição de exercícios I B
  • Pós-síndrome respiratória aguda (inclusive COVID-19), para investigação de dispneia, fadiga crônica e/ou intolerância ao esforço I B
  • Pós-síndrome respiratória aguda, para determinação da aptidão cardiorrespiratória e liberação/prescrição de exercícios I B
  • Adulto com cardiopatia congênita, para avaliação de sintomas, decisões terapêuticas, estratificação de risco e prescrição de exercícios I B
  • Hipertensão pulmonar, para diagnóstico e avaliação seriada (a cada 6 a 12 meses) I B
  • Pós-embolia pulmonar aguda (após 3 meses), sintomática com discordância V/Q na cintilografia, para diagnóstico e seguimento de HP I B
  • Paciente em tratamento oncológico, para estratificação de risco e liberação/prescrição de exercícios I B

Entre as classe IIa: broncoespasmo esforço-induzido (IIa B), suspeita de DAC (IIa B), EAo grave assintomática (IIa B), doença valvar estável (IIa B), MCH (IIa B), HP com piora de sintomas (IIa B), avaliação pré-participação de atleta com CC (IIa B), e pré-operatório de cirurgia não cardíaca em pacientes com baixa capacidade funcional (<4 METs) e/ou alto risco cardiovascular (IIa B).

08

O que deve constar no laudo

Seção 6 — a interpretação e a descrição de todas as variáveis do teste ergométrico devem ser incorporadas ao laudo do TCPE.

01

Descrição detalhada do comportamento das variáveis do TCPE, particularmente aquelas alteradas e/ou relacionadas ao motivo de solicitação do exame.

02

Valores de referência das variáveis, se disponível com dados da população pertinente ao paciente (idade, sexo, raça, nível de atividade física diária etc.).

03

Gráficos e tabelas das variáveis relevantes e suas respectivas interpretações, baseadas na indicação do exame e eventuais diagnósticos.

04

Informações referentes à estratificação de risco / prognóstico.

Limite importante

Considerando que a prescrição de exercícios é responsabilidade do médico assistente, não se recomenda a liberação automática dessa prescrição baseada exclusivamente no TCPE.